Noite de Fado em Lisboa

A primeira impressão ao chegar em Lisboa é que terra dos nossos colonizadores não anda muito bem das pernas. O aspecto geral do centro da capital portuguesa é meio velho, sujo, mal cuidado, que me faz logo pensar na crise econômica do país. As fachadas dos prédios antigos que costeiam as ruelas e ladeiras da cidade denotam um forte descuido, parecendo velhas ruínas de um lugar que taslvez um dia já fora imponente. Andar pelas ruas de Baixa-Chiado, Bairro Alto e Alfama gera um sentimento de uma certa melancolia, um certo ar de inevitabilidade do tempo, de decadência, visto tanto na população (nunca vi tantos velhinhos num só lugar como lá), como em seus prédios.

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Ruas de Alfama

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Contraste velho/novo nos bondinhos decorados com street art

Mas é por ali também que acontece a vida cultural da cidade. O Fado, o principal patrimônio imaterial do povo português, reflete um pouco esse ar melancólico e fatalista que a cidade emana. Na beira do Rio Tejo, onde desenbocam as ribanceiras do bairro da Alfama, está o Museu do Fado (Largo do Chafariz de Dentro, nº1, 5€, grátis aos domingos das 10 às 14h), com uma variedade de discos, informações, documentos, roupas e obras diversas que registram a trajetória da música lusitana. Desde suas origens com os trovadores dos bairros Mouros de Lisboa (daí o canto chorado e arrastado, um forte indício do parentesco com a música árabe), até seus tempos de glória com Amália Rodrigues e a exportação do gênero para o Mundo. Muito legal para quem quer conhecer os nuances dessa música tão rica e poética.

Mas não é possível dizer conhecer completamente um estilo de música sem ouvir e presenciar uma apresentação do mesmo ao vivo, por isso me incuti a missão de procurar uma autêntica experiência do fado português, que desde suas origens é uma música comunitária, cantada em grupos de amigos, reuniões familliares e coisas do tipo. No mesmo bairro da Alfama, nos bares e cafés que rodeiam a região da Catedral da Sé, são oferecidas diversas apresentações voltadas ao circuito turístico. Geralmente, para assistir alguma das performances é preciso desembolsar entre 15 e 30 euros de consumo nos bares, o que deixa a situação um pouco salgada. A solução que encontrei foi caminhar sem rumo deixando que a música me levasse.

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Fado na Tasca do Jaime

Numa dessas fui puxado pelo canto que vinha da Tasca do Jaime (Rua Graça 91), um bar minísculo, com capacidade para talvez no máximo 30 pessoas. Lá dentro, senti estar invadindo uma reunião particular: um grupo de uns 10 amigos bebiam, enquanto três deles se revezavam na cantoria, acompanhados por dois guitarristas de fado, sendo um deles o filho do casal dono do bar. A experiência foi inesquecível, cheia de momentos arrepiantes e de quase-lágrimas (sic). E tudo pelo preço de nossa mera presença, muito embora nós tenhamos consumido uns “finos” (jeito português de se referir a uma tulipa de chopp) e uns bolinhos de bacalhau para agradecer o acolhimento.

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Kočani Orkestar: suingue e tradição cigana

Poucos nomes da música traduzem melhor o espírito cigano de banda de rua dos Bálcãs como os macedônios da Kočani Orkestar, um grupo de 12 instrumentistas baseados em instrumentos de sopro e percussão. Como é típico da inspiração anárquica, multiculturalista e festiva do gênero, a o som do grupo parece prestes a se deteriorar a qualquer momento numa desengonçada celebração alcoólica. Mas o resultado é um show de ritmos super-acelerados e cheio de virtuosidade, num som que combina a herança musical dos exércitos turco-otomanos com os mais diversos sabores da cultura cigana do leste europeu, sobrando até mesmo espaço para um temperinho de ritmos latinos.

Kocani_Orkestar1

Presenciar uma apresentação de uma banda como essa é um convite a, no mínimo, brindar quantos chopes se possa contar nos dedos: isto é música digna de alguns dos mais altos índices de festa e alegria que se possa chegar – afinal, poucos sabem se divertir melhor que a galera dos Bálcãs, que o diga a ciganada.

O músico e multi-intrumentista nova-iorquino Beirut, fascinado pela música do leste europeu, teve a companhia especial da Kocani Orkestar na sua participação na web-série A Takeaway Show de Vincent Moon do blog La Blogothèque. A banda também fez parte da trilha do filme Borat – O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América com a música “Siki/Siki Baba”.

Nada melhor que um expoente da autêntica música cigana dos Bálcãs para servir de carta de intenções desta seção do blog. Eugene Hutz do Gogol Bordello (a quem a Kočani Orkestar é uma influência definitiva) se diz um “Wanderlust King” na música homônima. Algo como autointitular-se “O Rei sedento por Viagens”, cantando sobre uma batida de Gypsy Punk das mais aceleradas nesta que é a canção de sua banda que melhor explica o espírito cigano. Pois que o seja então, a partir de agora para mim, o início de uma transformação num autêntico wanderlust king.