De Madrid al cielo

É muito fácil se perder em Madrid. O coração da capital espanhola parece-me ser tão tortuoso e labiríntico quanto o de seu povo, cicatrizado por dezenas (talvez até centenas – me faltam os dados) de guerras. O pouco contato que tive com os locais logo transpareceu um certo comportamento objetivo e sem rodeios – algo que as vezes beira até a grosseria -, e uma certa intensidade de espírito, que vibra nos bares da cidade, entre cañas de cerveja ou copas de vinho e sangria. Não poderia esperar algo muito diferente de um povo que tem sua identidade nacional marcada por uma prática tão controversa como a das Touradas: a “única arte onde o artista se arrisca sua honra à morte”, escreveu Hemingway.

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Perdidos en la calle

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Azulejos decorados enfeitam vários bares locais

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Madrilenho em seu habitat

Belas pernas

Belas pernas

Não sei se é reflexo da minha condição de marinheiro de primeira viagem na Europa, mas logo fui envolvido pelas “calles” charmosas e pulsantes da capital espanhola. Seja quando se cruzam ou quando se abraçam delimitando as várias Plazas daqui, as calles madrilleñas tem uma capacidade incrível de sedução: pode ser pela fachada cheia de azulejos decorados e pinturas de dançarinas de flamenco num restaurante cheio de deliciosas tapas em La Latina; ou por mercearias e empórios com quase voluptuosas peças de jamón ibérico ou serrano expostas nas vitrines em Salamanca; pode também ser em Huertas, em tabernas com jazz e um certo charme “neoclássico”, como que fossem respostas madrilenhas a bohème française. Ou, se for para sentir onde o velho encontra o novo, lugares como o “hip” Malasaña e o “gay friendly” Chueca têm suas calles cheias de bares agitados, casas noturnas diversas e lojinhas com bugigangas e roupinhas descoladas para quem não esquece que é moderninho mesmo turistando.

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Lojinha charmosa

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Caminhos tortuosos

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(:

Em Madrid nos perdemos em seus museus, longos e sofisticados. Prédios de arquitetura clássica e imponente, de amplos salões, exibindo a memória do Reino de España e de toda arte européia nessa capital “jovem”. Jovem pois foi apenas há 500 anos elevada ao status de centro da monarquia. No “triângulo de ouro” da arte, próximo ao passeio do Prado, encontramos os três dos mais importantes museus do mundo: o Museo del Prado, o Centro de Arte Reina Sofia e o Museo Thyssen-Bornemisza. Dos góticos alemães e renascentistas italianos (Prado), aos impressionistas e expressionistas do romantismo europeu (Thyssen-Bornemisza), até chegar no amplo acervo modernista e de vanguarda do Reina Sofia – com obras do cubismo, surrealismo, minimalismo e pós-modernismo em evidência – a capital espanhola nos dá uma bela aula de história da arte, como poucas outras cidades no planeta podem oferecer.

Museo del Prado

Museo del Prado

Plaza de Toros Las Ventas

Plaza de Toros Las Ventas

Centro de Arte Reina Sofia

Centro de Arte Reina Sofia

Pra relaxar no meio de todo esse banquete gastronômico e intelectual, Madrid conta com o Parque del Retiro, um imenso jardim da família real espanhola projetado e construído pelo rei Felipe IV no século XVI, mas que foi aberto ao público apenas após a Revolução Gloriosa em 1868. O parque é o ponto de encontro dos madrilenhos, que usam do amplo espaço para dar uma corridinha, passear com o cachorro ou apenas fazer um picnic em seus belos espaços. Os mais empolgados podem também passear de barco no lago que acompanha o Monumento ao Rei Afonso XII. Na saída sul do parque dá pra perder algumas horas na Feiria de Libros Cuestas de Moyano, com vários quiosques vendendo livros usados à partir de 1 euro.

Depois irei detalhar mais algumas de minhas descobertas pela cidade, como meus achados “low cost” – onde comer e beber barato, curtir um som, ou dormir sem gastar muito -, e um guia mais completo dos museus de Madrid para quem não tem grana (a.k.a. euzinho mesmo, hê).

Logo mais parto à Sevilla em busca de um bom show de Flamenco e uma bela teça de vinho Andaluzino. Hasta luego, cabrones!

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Olá, mundo!

Engraçado como esse estúpido automático título fornecido pelo WordPress a todo novo metido a escritor vem bem a calhar para o meu caso. Olá, mundo! Olá, Espanha, França, Rússia, Hong Kong, Tailândia, Japão, Nova Zelândia, Estados Unidos, México, Costa Rica! Olá, sonho!

Não é pouca coisa realizar uma volta ao Mundo. É algo com o que qualquer um lendo este parágrafo já sonhou. Eu sonho com isso talvez desde a infância, quando desenhava mapas, bandeiras, e decorava nomes das capitais de países como Uzbequistão, Nepal, Jordânia, Iêmen, e por aí vai… Quando entrei num curso superior de Jornalismo tinha o ingênuo desejo de viajar como correspondente internacional; falar sobre a cultura, a música, a comida, a vida da população do maior número de territórios em que pudesse deixar minhas pegadas.

A graduação te derruba muitos mitos, é certo. Te enche de decepções, e acaba as vezes até te levando a desacreditar na possibilidade de realizar qualquer coisa que supere o limite da mediocridade. Mas, cá estou eu, prestes a embarcar na cara e na coragem numa jornada que nem meus maiores ídolos literários sequer sonharam. É claro que, todos, se não percorreram o terreno físico que irei percorrer, tiveram em suas experiências o peso, o sangue, as lágrimas e conquistas que nem 10 voltas ao mundo alcançariam. No entanto lá vou eu, numa tentativa de junto a meus heróis – Hemingway, Miller, Kerouac, London, Bukowski, Cèline, Orwell, Hunter Thompson, Foster Wallace, Bourdain, Greil Marcus – observar o Mundo com os olhos de quem cansou de deixar a vida pra depois. Quero deixar tantos carimbos nas trilhas do planeta e de quem me acompanhar por aqui quanto os carimbos que terei em meu passaporte.

“Nothing behind me, everything ahead of me, as is ever so on the road.”
— Jack Kerouac (On the Road)