Pelas curvas tortuosas do Guadalquivir…

A passagem por Sevilla foi curta e começou com aquele que, digamos, foi o primeiro choque de realidade europeu: o ônibus. Aparentemente o “primeiro mundo” exige que você se locomova por carro, trem ou avião entre uma cidade e outra, porque haja adjetivos pejorativos para descrever o serviço de transporte rodoviário por aqui – pelo menos na península ibérica, pelo que fui informado. Os ônibus tem poltronas apertadérrimas como de classe econômica de avião, e, pelo menos nesse trajeto até a cidade andalucina, o “autocarro” foi em 70% do tempo com o rádio ligado (ah, a viagem é noturna, da meia-noite às 7h), isso sem contar com o mau cheiro que dominava o ambiente. Mas enfim, vida de mochileiro é assim mesmo, e o negócio é meter o fone no ouvido, um lenço cheio de perfume na cara e o travesseirinho na lomba e seguir em frente.

Perrengues à parte, a antiguíssima cidade de Sevilla foi fundada ainda pelo Império Romano, mas ainda antes foi um vilarejo/povoado de povos fenícios. Passou por um grande período sob domínio muçulmano, entre os séculos VIII e XIII, até ser conquistada pelo império Castelhano e ficar sob domínio espanhol. A cidade também abrigou por muito tempo uma ampla comunidade judaica, concentrada após a conquista espanhola na área que hoje compreende o bairro de Santa Cruz. As ruas, estreitas, com casas de três a quatro pavimentos, foram pensadas no sentido de inibirem a entrada do quente sol dos verões da cidade. Por isso da aparência labiríntica do lugar, extremamente apertado e cheio de becos que oferece apenas algum respiro nas suas inúmeras praças no meio do caminho.

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Ao chegar na cidade, um dos primeiros pontos de visita obrigatória é Real Alcázar, um dos palácios mais antigos do mundo. Foi construído no século X a mando do Califa de Córdoba como sede do governo mouro na região, e logo se tornou o centro da vida social e cultural da europa muçulmana. Mais tarde, após a guerra da reconquista, passou a ser a sede da coroa Castelhana, tendo marcadas em suas paredes mais de mil anos da história dessa cidade, que se desenvolveu nos entornos do rio Guadalquivir e foi por muito tempo o porto de maior atividade dos espanhóis, que traziam todo as riquezas do “novo mundo” até lá pela posição estratégica longe dos barcos piratas que circundavam pelo atlântico. Foi dali que saiu Fernão de Magalhães em 1517 saiu em sua viagem de circum-navegação pelo globo. Ao lado do Alcázar inclusive está o prédio do Arquivo Geral da Companhia das Índias, onde se encontram os registros oficiais dos mais de 500 anos da história da navegação e expansão ultramarina espanhola. Ah, e logo a frente do mesmo local está a Catedral de Sevilla, a La Gironda, dotada de impressionante arquitetura gótica e que também é quase tão velha quanto a cidade, tendo sido anteriormente uma mesquita do povo mouro (claro que ainda sem toda a imponência atual, obra dos conquistadores castelhanos já no segundo milênio).

La Gironda com o Arquivo Geral das Índias a esquerda.

La Gironda com o Arquivo Geral das Índias a esquerda.

Interior do Álcazar

Interior do Álcazar

Os belíssimos Jardínes del Alcázar

Os belíssimos Jardínes del Alcázar

Alcázar

Alcázar

A imponente arquitetura gótica da La Gironda

A imponente arquitetura gótica da La Gironda

Já dá pra perceber que uma visita a Sevilla é uma verdadeira aula de história. E, num lugar que já abrigou tantos povos (mouros, judeus, católicos), as lendas correm com a mesma naturalidade com que corre o Guadalquivir. As visitas guiadas gratuitas do projeto Sevilla LowCost (http://www.sevillalowcost.es/index.php?lang=en), mantido por estudantes de história da Universidade de Sevilla, incluem um passeio pelas lendas do Barrio Santa Cruz. Uma delas trata da traição de “La Susona”, uma bela moça judia que, conta-se, enamorou-se secretamente de um príncipe cristão no século XIV. No meio da conspiração judia para tomada do poder político na cidade, Susona delatou seu pai e seus semelhantes ao amado, que prontamente reuniu as forças da coroa cristã para conter a insurreição judia, assassinando a todos os conspiradores e exibindo suas cabeças em praça pública. Susona, rejeitada pelo seu povo, tentou abrigo com o príncipe, que por sua vez a rejeitou, considerando a delação uma amostra de fraqueza e desonra. Triste e desolada, Susona se manteve reclusa na antiga casa de sua família, completamente sozinha, definhando até a morte. O povo judeu, após encontrá-la morta, arrancou a cabeça de Susona e a pendurou em frente de sua casa, mostrando a todos o rosto daquela que os traiu.

Placa que marca o local onde viveu La Susona

Placa que marca o local onde viveu La Susona

A cabeça de La Susona

A cabeça de La Susona

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Visitar Sevilla também requer um passeio pelo bares e bodegas do centro histórico, na sua maioria botequins apertados e com a aparência rebuscada e tradicional que tem em suas paredes tanta história quanto a cidade. Um lugar que logo ao começo da sesta se enche de Sevilhanos é a Bodega Santa Cruz (Calle de Rodrigo Caro esquina com Mateos Gago), em que é preciso se levar aos cotovelos até o balcão, separado da entrada por um corredor de um metro e meio. As deliciosas tapas do lugar custam o preço de 2 euros cada e incluem uma infinidade de sabores. Beber aqui também não aperta o orçamento, com a caña saindo a uma moedinha de 1 euro. Outro desses lugares apertadinhos ótimos para uma cerveja é o Bar Alfalfa (esquina Calles Alfalfa & Candilejo).

Interior da Bodega Santa Cruz

Interior da Bodega Santa Cruz

A noite a melhor pedida é assistir um show de Flamenco gratuito no bar La Carbonería (Calle Leviés). Fora do circuito turistão/explorador da tradicional música de España em Sevilla (onde um show custa uma média de 25 euros), o lugar mais parece um barracão antigo por fora, mas todas as noites abre para encher seu espaço de visitantes afim de bebericar drinks e curtir uma boa apresentação de Flamenco. Os preços das bebidas lá dentro não é dos mais baratos, mas a cerveja a 2,50 euros ainda está numa faixa de preço honesta considerando a apresentação ser gratuita.

Flamenco no La Carbonería

Flamenco no La Carbonería

Pintura na fachada do bar

Pintura na fachada do bar

Outras coisas a serem vistas em Sevilla incluem a Plaza de España e o Parque Maria Luisa, estrutura feita para abrigar a Exposição Ibero-Americana em 1929, e a esquisita obra pós-moderna do Metropol, um prédio constrastante todo feito com estruturas de madeira concluído há apenas 2 anos e que abriga um mirante do centro da cidade, um mercado público e um Antiquarium, que expõe as pegadas deixadas na cidade pelos Romanos e Fenícios na antiguidade.

Fatiando Jamón no mercado público em Sevilla

Fatiando Jamón no mercado público em Sevilla

Metropol, trambolho de madeira futurista no meio do centro histórico

Metropol, trambolho de madeira futurista no meio do centro histórico

Paella deliciosa, pero muy cara no Gago 6 (Calle Mateos Gago 6). Sai 12,50 euros por pessoa.

Paella deliciosa, pero muy cara no Gago 6 (Calle Mateos Gago 6). Sai 12,50 euros por pessoa.

Turistas idiotas, a gente também vê por aqui.

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